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Saber ser feliz

Éramos eu e ela. E o barulho rumorento de centro de cidade. Ela falava, eu escutava. Vez ou outra abanava a cabeça em concordância. Ou a balançava discordando. Sem espaço para voz. Ela me chamara para ouvi-la, apenas ouvi-la – eu descobria naquela hora.
Após uma descontrolada enxurrada de palavras, algumas caretas, arregalar de olhos e voz em falsete, ela começou a chorar. E eu ali. Olhando-a e me perguntando que atitude tomar. As palavras faziam cócegas nas minhas cordas vocais. O bom senso me dizia para esperar. E o coração, derretido, pedia-me para dar-lhe colo.
Alguns poucos minutos de lágrimas e ela me olhou desafiante:
- Entendeu por que não quero mais ouvir falar em felicidade? Se isso existe, não foi feito pra mim.
Eu sabia que deveria sair do estado cataléptico em que me encontrava. Era a minha vez de entrar em cena. Talvez, assumir aquele ar compreensivo e maternal que tantas vezes usei com meus alunos. Mas, estranho, descobri que não conseguia sentir carinho por ela. Não naquele momento.
Ao invés de responder-lhe, fiz sinal à garçonete. Pedi outro suco. E olhei à minha volta. Sem nenhuma vontade de olhar para ela. Sem nenhuma vontade de discutir felicidade.
- Parece que você não escutou nada do que eu disse.
- Escutei, claro. E parece que fez bem a você falar sobre tudo isso, né?
- Mas é só isso que você tem a me dizer? Que amiga é você? Não vê que estou desesperada e precisando de ajuda?
- Escutar e calar-se, às vezes, é o gesto mais amigo que alguém pode ter.
- Que merda! Não foi pra ouvir isso que te chamei aqui!
- Ok. Então vamos embora. Tenho que voltar ao trabalho.
- Pelo amor de Deus!!! Não vai me deixar aqui neste desespero, vai? O que faço?
Sorri. Sem nenhuma felicidade. Também sem nenhuma vontade de continuar aquele papo. Maldade minha, pensei. Ela espera a minha mão amiga. Mas já passou da hora desta criatura parar de olhar para o próprio umbigo e começar a crescer.
- Aninha, se você estivesse me pedindo uma grana emprestada, ou estivesse precisando de ajuda para um trabalho ou algo parecido, seria fácil. Mas ensiná-la a ser feliz é impossível minha amiga.
- Mas tem que existir uma explicação pra tanta infelicidade. Quero que me ajude a entender isso, compreende?
- Não tenho respostas pra isso, Aninha. Você é que precisa encontrar suas respostas. Talvez precise aprender a olhar à sua volta. Quem sabe assim você se descubra muito menos infeliz?
- Porque felicidade, minha querida, não é um objeto perdido que precisa ser desesperadamente encontrado. Nem um sentimento que precisa ser pensado. Felicidade a gente vive. No agora, nas coisas pequenas, nos gestos, nas atitudes. Felicidade é percepção. De si mesmo e do seu entorno. E, especialmente, felicidade não está lá fora, em alguma coisa ou em alguém. Está dentro de cada um de nós.
A conversa ainda durou mais alguns minutos. Até que dei por encerrado o papo. Meu tempo havia acabado. E eu estava aliviada por ter conseguido devolver a ela a carga que a ela pertencia.
Porque é função nossa de cada dia saber viver. E saber viver é também saber ser feliz.


* * *
Beijo e carinho. Pra você!

Ler e escrever: transformação

Dizem que escrever é uma arte. Pode ser. Para mim é um desafio que se renova a cada manhã. Porque quero escrever e ser lida. Lida por leitores que têm à sua disposição grandes mestres da literatura e vivem num tempo em que a comunicação ganha agilidade com a tecnologia e onde imagens substituem letras.
Sempre adorei escrever. Tenho para mim que nasci escrevendo, tal é a necessidade que tenho de juntar letras. O que já escrevi nesta vida daria para editar uma estante cheia de livros – se quantidade fosse qualidade, é claro. Pois bem, descobri que, por melhor que eu escreva, nunca serei lida como quero. E não é porque eu escreva tão mal assim. É porque tem uma doença grave e crônica no brasileiro que impede que eu seja lida. Doença esta que é combatida por mim, educadora, mas que vive também em mim, leitora. Preguiça! Isso mesmo, temos preguiça de ler.
Quando eu era professora de ensino fundamental, vivia brigando com minha criatividade para criar o hábito de leitura nos meus alunos. E por mais que eu criasse motivações, a leitura deles nunca alcançava o nível que eu achava satisfatório. Não desisti, mas também não consegui.
Um dia, lendo uma entrevista de Foucault ao Le Monde, comecei a entender esta relação escritor-leitor. E comecei a perceber, até mesmo em mim, a preguiça que todos temos de nos entregarmos a uma leitura. Esta preguiça não é privilégio do brasileiro, mas aqui ela parece ser imensurável - como alguns outros defeitos tão nossos conhecidos e tão inteiramente tupiniquins.
Comecei então a me preocupar mais com a minha escrita. Já não seria suficiente ter clareza, ter boa argumentação e abordar temas interessantes. Seria preciso levar em consideração a preguiça. Esta mesma preguiça que me fazia ler um texto em diagonal, perdendo muitas vezes a mensagem implícita e, de certa forma, desvalorizando o trabalho de quem escreveu. Seria preciso aprender a arte da síntese: escrever da forma mais interessante possível, com um menor número de letras possível.
Embora para muitos e importantes escritores não seja fundamental a opinião do leitor, a mim parece imprescindível ter uma mensagem escrita decodificada por quem me lê. Porque uma escrita, seja ela qual for, só tem sentido se alcança quem a lê. Passei então a escrever para o meu leitor, respeitando a sua preguiça, mas tentando criar nele a vontade de continuar lendo. É claro que nem sempre consigo. (Especialmente quando o que escrevo parece não ter interesse nem mesmo para mim.) Mas é preciso continuar tentando. Porque escrever e ler são atos que interagem entre si e é condição para o pensar, o crescer, o transformar.
Continuemos, pois, escrevendo, lendo, interagindo. E nos transformando através da escrita e da leitura.



* * *

Meus agradecimentos especiais a todos que me mandam e-mails, aos quais não estou respondendo. Agradecimentos também a quem está sempre por aqui. Amo vocês!

Um grande beijo e uma ótima semana a todos.

(PS. Ando tão desconectada de tempo que só agora - depois de visitar alguns blogs - estou percebendo que já é primavera. Será que não deveria estar proseando sobre flores e amores?)

Midi: La vie en rose - Edith Piaf

Toda mulher merece!


Após todos os movimentos feministas, a mulher ainda precisa carregar pedras para sobreviver. É fato que ela já pode se candidatar à maioria dos cargos – públicos ou privados. Já está também comprovada sua competência, seu senso de responsabilidade, sua criatividade e seu alto grau de empreendedorismo. Até já é aceita como parceira profissional dos antigos donos do poder - embora os homens ainda se calem quando ela entra em suas rodinhas. Embora, também, sejam sarcásticos e irônicos em várias situações cotidianas. E embora os salários tenham uma pequena diferença ainda não ultrapassada!
No âmbito profissional, parece que eles aprenderam. A maioria sente-se moderna: não gosta de feminismos nem machismos. São cavalheiros, mas sem paternalismos. São machos, mas sem ostentação. Tudo isso parece lindo, no âmbito profissional. Mas em casa, como são eles?
Existem algumas exceções, mas a regra é poderosa: sentem-se no dever de dividir as tarefas domésticas, mas numa proporção ainda muito pequena. Porque casa, comida, filhos e roupa lavada continua sendo uma responsabilidade feminina. Em casa, o olhar do homem difere quilômetros do olhar feminino. Se o homem chega e encontra uma revolução na ordem doméstica ele se senta e vai ver jornal. Afrouxa a gravata, joga-se no sofá e solenemente ignora até mesmo a algazarra que o faz aumentar o volume da televisão.
Após o jornal, passa pela cozinha e a lembrança do dever o faz perguntar: quer ajuda, querida? (como se fosse mesmo necessário perguntar!) Um olhar da mulher, entre feroz e resignado, e ele começa a recolher as tralhas espalhadas pelo chão. E sente-se ajudando. Pára por aí. O esforço de abaixar e levantar tirou-lhe a energia. É mais interessante ser pai – e lá se vai ele brincar de rolar no chão com as crianças.
A mulher, que chega junto e encontra a mesma situação, joga a bolsa sobre o sofá e começa sua rotina. Em pouco tempo a casa torna-se um lar confortável e as crianças, bem alimentadas, sorridentes, de dever feito e muito acarinhadas, vão para a cama. Ainda sobra tempo para um banho de chuveiro, uma boa olhada no espelho e um sonho a mais. O homem sente-se feliz com a paz reinante, feliz em ter uma esposa competente e a noite termina na cama. Ele cheio de energia, ela cheia de amor. Mas cansada.
Diante de tudo isso, que não é história para boi dormir, chego à seguinte conclusão: toda mulher merece ter também uma esposa!




PS. na hora de procurar uma midi, encontrei Cotidiano de Chico. Ouvi novamente com toda atenção. Esta letra me parece ter sido feita como uma crítica à mesmice cotidiana, onde é evidente o fastio masculino em relação à vida conjugal - vida que não se ajusta mais aos nossos tempos. Mas se trocarmos os papéis e as situações, a letra se encaixa na vida moderna. Claro, a voz enfastiada passa a ser a feminina!




Proseando

Quinta-feira, quatro da tarde.
O que pode haver de interessante numa quinta-feira às quatro da tarde? Alguém pode estar descobrindo ter ganhado na loteria. Outro alguém pode estar perdendo o chão ao receber um diagnóstico inesperado. Alguém pode estar subindo a rua sonhando com declarações de amor.
Não acredite, leitor, que seja eu uma destas pessoas. Para mim, esta quinta está sendo como todas as últimas. A calculadora me olhando, a tela do computador cheia de letras que meus desejos não reconhecem e minha consciência gritando que gastei na livraria muito mais do que deveria (ando pobre demais, lendo demais e sonhando de menos)
Mas às quatro da tarde de uma quinta é também tempo de perceber que meus cabelos estão excessivamente compridos, minha cabeça vazia de novas idéias e que ando brigando com uma louca vontade de criar uma máquina do tempo. O que faria você se pudesse entrar numa geringonça do professor pardal e voltar alguns passos no caminho? Será que deixou lá atrás algo que precisa ser terminado, mudado, reencontrado?
Agora acredite, leitor, se fosse eu a senhora do tempo não mudaria nada. Faria tudo novamente. Mas amaria mais, choraria mais, me perderia mais. E chutaria com força algumas pedras do caminho, sem medo de quebrar o pé. E são estas pedras que quero chutar agora e aprender a ciência de deslizar. Porque deslizar é encarar a vida sem pesos e descobrir que as pétalas murcharam para dar lugar às sementes.
Quinta-feira, cinco da tarde. Levei uma hora escorrendo entre a paisagem sempre igual e a falta de inspiração.













"Uma hora e mais outra"

"... a hora mais bela foi a mais triste, aquela em que mais precisaram da gente..."
QuincasB


Roubo de Drummond o título – sem a pretensão de roubar-lhe o talento – e de Quincas B a epígrafe, para dizer que estou tentando voltar. Outra vez com a vida virada de ponta-cabeça ( desconfio que eu seria muito mais competente, e certamente famosa, se tivesse escolhido ser uma malabarista de circo).
Estive muito doente. Melhorei. Mas sinto que nunca me curarei completamente. É o ônus de ter um filho em tudo parecido comigo, mas que lá na adolescência transformou-se em drogadicto. Desde então o fantasma da recaída nos ronda. Porque ela acontece. E quando acontece, como agora, toda a família adoece. É quando a gente descobre forças onde nem imagina existir. E recomeça. Seja de que ponto for, seja em que estágio estiver a doença. Sempre olhando para frente, na certeza de que nossas tragédias particulares, embora enormes e quase paralisantes, são ínfimas se comparadas aos sentimentos do mundo (de novo, Drummond).
Então, se não me curarei desta doença – seja ela uma simbiose, homeostase ou simplesmente medo, também não me submeto a ela. Portanto, estou em constante recomeçar. E neste recomeçar, ler tem uma importância capital. Li muito nestes dias em que estive equilibrando auroras e crepúsculos. Li Stendhal, li Borges, li Guimarães Rosa, li Manoel de Barros. E, principalmente, li Drummond, Leminski e Clarice – nem preciso dizer que este é meu trio preferido!
E li blogs. Muitos. Mas, apesar das minhas tentativas, a palavra não se fez minha: não consegui me fazer presente por onde andei. E escrevi muito também. Escrever é minha catarse. A forma de buscar o equilíbrio, a racionalidade quando tudo é emoção. Apesar de ter escrito muito, opto pela não publicação aqui até que consiga voltar a ser uma blogueira. Porque ser blogueira implica em estabelecer comunicação direta, implica em trocas, implica em acréscimos. Neste momento tenho pouco a acrescentar, embora muito a receber.
Mas sinto que não demorarei a voltar. E enquanto durar a ausência, fiquem com as palavras de quem sempre soube tê-las. Como dele já roubei o título, deixo trechos do poema. E aproveito para agradecer o carinho, a presença, a solidariedade de amigos que nunca vi, mas sempre amarei.

Trechos de “Uma hora e mais outra”
Livro A rosa do povo
De Carlos Drummond de Andrade

...

Amigo, não sabes
que existe amanhã?
...
Exato, amanhã
será outro dia.
Para ele viajas.
Vamos para ele.
Venceste o desgosto,
calcaste o indivíduo,
já teu passo avança
em terra diversa.
Teu passo, outros passos
ao lado do teu.
...
Tantos: grossos, brancos,
negros, rubros pés,
tortos ou lanhados,
fracos, retumbantes,
gravam no chão mole
marcas para sempre:
pois a hora mais bela
surge da mais triste
Há mais de uma semana não consigo comentar os blogs que leio, apesar das tentativas de visita que tenho feito. Minha rosa-dos-ventos está desvairada e perdi o norte. Porque não há nada que desnorteie mais uma mãe do que ter um filho internado. Desnorteia, desconcentra, descentra.
Por isso, o sumiço.
E também por isso, estou extremamente agradecida a quem, apesar da minha ausência, esteve aqui nos últimos dias:
A gata por um fio, Adelaide, Ádina, Afonso, Alexandre Alf, Ana, André Luis, Andréa, Anne, Assis Freitas, Bia, Bosco Sobreira, Carol, Ceci, Cherry, Clarice, Claudia, Claudinha, Crys, Diovvani, Dirá, DO, Dora, Edson Marques, Elis, Esyath, Fábio Pinheiro, Fernanda, Francisco Dantas, Hermann, Jota, Ju, Lela, lu, Lu, lu(terceira), Marcelo, MM, Naeno, QuincasB, Rafaela, Ray, Ricardo Rayol, Rubens Ribeiro, Sanka, Saramar, Shi, Shumy, Silêncios do coração, Simone, Taís, Wilson Guanais.

Meus agradecimentos especiais ao Jota pelo afago que me fez (sempre faz) em seu blog!!!!

Volto. Quando os ventos de uma nova primavera soprarem em mim. Mesmo que ainda seja inverno!




Beijos a todos. Ótimos dias!



midi: noites com sol - flávio venturini


Emoção e Indignação

“É direito inalienável de todo cidadão se indignar com o que acontece no seu quotidiano”
Antigo provérbio austro-húngaro-otomano pinçado do blog Jus Indignatus


Grandes tragédias emocionam, indignam, causam inúmeras polêmicas. A tragédia do Vôo JJ 3054, acontecida no dia 17 de julho, emocionou a mim da mesma forma que à maioria dos brasileiros.
Mas vou seguir um desvio. E falar da minha indignação cotidiana. Não tão majestosa, nem tão poderosamente estrondosa. A indignação de saber, mesmo sem ver, que um número assustador de vítimas é feito diariamente neste país. Vítimas de balas perdidas, vítimas de filhos da classe média, vítimas das drogas, vítimas das estradas, vítimas da fome, da falta de políticas públicas, do descaso de governos e sociedade civil, vítimas de uma sociedade elitista que consegue se mobilizar para criar o movimento “cansei” – movimento político-partidário elitista - e é incapaz de mobilizar-se para combater a injustiça social – a maior tragédia deste país.
Fica aqui a minha solidariedade aos parentes e amigos das vítimas do Vôo JJ 3054 . E a minha emoção e indignação sempre crescente pelo fechar de olhos em relação às pequenas, constantes e dolorosas tragédias cotidianas.

(Não sei se posso dizer que este texto faz parte da blogagem coletiva proposta pelo Ricardo Rayol do Jus Indignatus. Com certeza foi inspirado na proposta)


Continuo juntando minha voz a Chico e Milton para pedir ao Pai que afaste de nós este Cálice!

Proseando

Ontem, eram mais de onze horas quando uma antiga amiga me ligou. Chorosa. Indignada. Culpada. Acabara de descobrir que sua filha de 14 anos está grávida. Um fato que, apesar de desestruturante em qualquer família, vem se tornando comum, infelizmente. Depois, já na cama, foi inevitável pensar em nós – eu e esta minha amiga – e em como vivemos a nossa adolescência.
Era um tempo em que a droga mais usada pelo brasileiro – de todas as idades – era a obediência. Era um povo na sua maioria calado. Porque “cala a boca” era expressão usada por pais, professores, maridos e militares - além do temível AI-5 pairando sobre a cabeça de todos nós. E a maioria calava sem sequer saber porque o fazia. Mas nós, uma boa parte dos jovens e adolescentes - sob a influência especialmente dos movimentos de protesto de jovens do mundo inteiro, da contracultura trazida pelo rock’n roll, MPB e o teatro de arena, através das leituras de Marcuse, Marx e outros - criamos outras expressões, tivemos outro comportamento. Desobedecer, questionar, transgredir e que tudo o mais vá pro inferno – este era nosso lema. (Algum tempo depois, descobri que Maiakóviski já dizia isso num poema: “Gente é pra brilhar / Que tudo mais vá pro inferno / Este é o meu slogan / E o do sol”)
Foi o tempo também das pílulas. Do LSD ao anticoncepcional. E não era difícil ter acesso a nenhuma delas, especialmente esta última. Mas apesar da liberação sexual das décadas de 60 e 70 e toda a nossa loucura em função de nossas ideologias, o índice de gravidez na adolescência foi proporcionalmente muito menor do que vemos hoje. Longe de mim querer ser uma especialista em comportamento familiar, mas tentando fazer um paralelo entre nós e os atuais adolescentes, fico pensando que a grande deficiência hoje está num vácuo inominado existente entre pais e filhos. Vácuo estabelecido, conscientemente ou não, por nós - aqueles adolescentes moderníssimos, questionadores, transgressores e engajados. Os mesmos que tiveram pais considerados retrógrados, repressores, castradores. Mas foi com estes pais que aprendemos os valores que nos sustentaram, até para que pudéssemos estar estabelecendo uma nova ordem. Porque para se mudar algo é preciso partir de algum ponto. E fico me perguntando: de que ponto partem hoje os adolescentes?
Parece que em alguma parte do caminho nós, os adolescentes daquele tempo, nos perdemos. A maioria de nós continua sendo cabeça pensante, engajada e indignada (embora questionável em relação à ação).
Mas e como pais? Destruímos o modelo e não soubemos colocar outro no lugar?


* * *



Convite para blogagem coletiva

Copiando direto do Jus Indignatus, blog do Ricardo Rayol:

Como todos sabem no Brasil o povo tem memória curta. Dizem os políticos, envolvidos em escândalos, que se deve fazer o possível para ser esquecido no 16º dia. Então, no dia 02 de agosto, convido a todos para a blogagem coletiva "Vôo JJ 3054 - Uma cena". A idéia é tomar uma cena que mais tenha marcado, na cobertura do acidente e de fatos relacionados, e falar sobre ela.
Participe!

Ótima semana. E beijos meus!



Midi: Cálice - Chico Buarque/Milton Nascimento

Encontro consigo mesma

(carta para minha mana Elis
e a quem mais interessar)

O dia é claro como tantos outros, o mundo fervilha ao seu redor e você o sente apenas superficialmente. Há dias você está desacordada e nem sequer tem a aliviante pretensão de ser a bela adormecida. Porque você sabe, não há príncipe encantado que vá te acordar. No fundo, bem lá no fundo, você sabe mais: o passarinho que fará sua manhã está preso dentro desta sua pouca vontade de ver e de ouvir e de estar e de ser.
Onde foi que você se perdeu?
Não, você não se perdeu. Você está, profundamente, esquecida de si mesma. Como se guardada em esquecimentos conseguisse anular os passos inexoráveis desta vida que está passando por você. Esta mesma vida que em outras épocas foi sua amiga íntima. Mas você sabe que a vida não é uma amiga que ama incondicionalmente. O amor da vida é um amor exigente. Ele cobra cada minuto desperdiçado, cada dia mal vivido. E seus dias, seus minutos estão sendo desperdiçados nesta falta de coragem de ver-se e querer-se e aceitar-se. Mas não há como mudar sem aceitar suas próprias limitações. Sem ser tolerante consigo mesma. Sem o grito que estilhaça o reflexo do espelho. E sem entender que no ato de perder você ganha a possibilidade de ganhar. Sem perdas não há ganhos que possam ser valorizados.
Por isso, é preciso rasgar a pele. Despir a alma. Expor-se a si mesma e promover seu próprio encontro. Coragem. Abra a concha onde se esqueceu e comece a fazer novas escolhas. Mas sem atropelos. Lembre-se de Kafka: "Tenhamos paciência - uma longa, interminável paciência - e tudo nos será dado por acréscimo." E nunca se esqueça de que a vida só se justifica quando você faz da sua caminhada um eterno garimpo do amor.
Siga em frente. Amando-se. Amando. Sempre e profundamente.



* * *



PS.
lu, adoro você aqui!!!


midi: tocando em frente - almir sater

Pedaços de mim

I
Calma! Não fui vítima de Jack estripador nem estou tão ruim a ponto de estar em busca dos meus pedaços. Verdade que ando profundamente preguiçosa. Tanto que ando sumida dos blogs. Mas de resto, estou apenas escorregando em cascas que eu mesma coloco e com uma certa dificuldade para acender luzes no meu caminho. Podia ser pior. Já pensou se eu estivesse contando apenas com a luz no fim do túnel?

II
O texto Absolvi os chats deu o que falar. Recebi alguns e-mails de amigos que por pouco não me chamaram de retrógrada. Tudo bem. Admito que sou exigente e chata quando se trata de linguagem escrita. Mas convenhamos: passei a vida lidando com educação, seria inconcebivel não dar valor à escreita correta.
Nem por isso, sou intransigente. Não uso a norma culta o tempo todo nem deixo de dar valor à linguagem coloquial. Só não consigo deixar de me preocupar com o sumiço das vogais. Coitadinhas! Que mal elas nos fazem para serem excluídas do nosso convívio, hein?

III
E por falar em linguagens...
Fui eleita “o chefe” mais metido que meus caminhoneiros já tiveram. Motivo: uso algumas palavras que ninguém conhece. Em contrapartida, me absolveram: fui eleita a musa deles. Não sei direito porquê, mas com certeza não é prêmio consolação – ou eu mato um!
Resultado: estou aprendendo a falar pequenos palavrões e a cultivar algumas expressões bem pitorescas. E o mais importante: estou montando uma biblioteca na ante-sala do refeitório. Por enquanto, um ou outro se aventura a pegar um gibi. Nenhum livro saiu do lugar. Mas tenho certeza que chegará a vez deles. Especialmente se eu continuar sendo musa de caminhoneiros.

IV
Fim.


Grande beijo pra você.
Se beber, não dirija. Se dirigir, não beba. E principalmente, não confie no pacote de novas medidas que regulamentam a aviação civil.




Midi: Continue curtindo Lady Day – já que mais nada de interessante acontece neste castelo de Abrantes (tentativa infame de fazer trocadilho!!!)

Absolvi os chats!

Meu conceito sobre chats sempre foi o pior possível. Mas... há um tempo atrás, quando estava em busca do meu renascimento, andei entrando em salas de bate-papo. Depois de alguns dias perambulando por elas, cheguei a três conclusões: eu estava me punindo severamente, a idade da pedra está mais perto que imaginei, Chat é um grande espelho onde a gente se vê como quer.
Comecemos pela minha autopunição. Rodopiei de saia justa e saia rodada por todo tipo de chat. De papo-cabeça a dog. Após cada sessão de besteiras – em algumas, pseudo análises de Nietzsche, Platão e trocentos outros filósofos, em outras convite direto para transar com um bicho qualquer, passando por ordens sádicas como se fosse eu uma maso em busca do sofrimento que redime - eu me perguntava: quais foram os ganhos e perdas da noite? Nunca consegui encontrar respostas. Daí a conclusão: era mesmo uma forma de me punir por algo que só a minha mente insana sabia.
Mas da tal punição, apreendi alguma coisa. A maior parte dos freqüentadores de chat, na sua maioria pessoas de bom poder aquisitivo e escolaridade acima da média, está emocionalmente empobrecida, politicamente andrajosa e vogalmente miserável. Esta última merece um parágrafo especial.
Cristo, as vogais estão sumindo do nosso idioma! Não bastasse o nível baixíssimo das opiniões – isso quando se consegue emitir alguma opinião – ainda usam consoantes que suprimem as vogais. Às vezes eu tinha uma dúvida atroz: estou entre adolescentes ou voltei ao mundo das cavernas? Hora me sentia cercada de hormônios desvairados, hora chegava a sentir a dor de ser puxada pelos cabelos. Mas esta resposta também não era importante. Nada parecia ser mais importante que estar ali assassinando o idioma em busca de uma companhia. Inclusive eu – ainda que o vício me fizesse escrever todas as palavras por inteiro e eu me achasse diferente de todos. E todos nós, perdendo as vogais irremediavelmente!
Obviamente, em pouco tempo paguei meus pecados e me alcei ao paraíso – fora dali. Acha que não ganhei nada com isso? Engana-se. Não há experiência que não traga ganhos. Um dos meus grandes ganhos foi encontrar três pessoas maravilhosas que são grandes amigos. Outra e talvez a mais interessante para aquele momento: se o meu ego já era avantajado, tornou-se um monstro em altura, largura e intensidade. Sem nenhum medo de parecer vaidosíssima: sou a deusa dos chats! Além disso, ganhei a certeza de que aquela gente lá não é a escória da humanidade. São pessoas mais que comuns e que no dia-a-dia trabalham, sorriem, amam, odeiam, comem, etc. Exatamente como eu, como você.
Chat não é nem inferno nem paraíso. É apenas o espaço onde as máscaras caem e o ser humano se mostra por inteiro – usando o anonimato ou através das imagens que cria para si mesmo. Quando se consegue analisá-los de fora, como fiz, chega-se à conclusão que é uma terapia de choque. E que choque!






Um grande beijo e ótimos dias!




Midi: Bee Gees - I started a joke


stand by

Não sei se é coisa de pisciana ou se de mim mesma: sei que tenho a pretensão de descobrir tudo que me interessa muito. E quase sempre chego onde quero. Mesmo que ao custo de alguns escorregões, algumas perdas e uma paciência de jó.
Tanto rodeio pra dizer: a página esteve fora do ar e está em stand by porque estive em busca de descobrir como se coloca haloscan no blogger novo!!!! É bem verdade que quase perdi - de novo - este blog. Mas não se alcança metas e objetivos sem correr riscos. Então taí o sistema de comentários que gosto. E estou inteiramente à disposição pra socializar esta minha grande descoberta. Quer as dicas? Me mande e-mail.
Mas agora estou com pressa e pressa é inimiga da inspiração. Volto depois pra deixar algo que mereça a sua leitura.


Beijos muitos e até!!!

Vida

Ontem meu coração parou. Por palavras-convite ao pecado da luxúria. Havia dois caminhos para voltar à vida, eu sabia. Um deles consagraria o meu espírito. O outro sangraria a minha carne. Quando o coração voltou a bater não havia mais escolha: eu já me transformara inteira no pecado da gula. Pecar é preciso, Viver é impreciso.


* * *

Continuo abusando e lambuzando beijos... em quem quiser!



PS. Existem poetas que fazem do poema um ponto de exclamação. Depois somem em reticências. Não é justo isso!!!


midi: momento - pedro abrunhosa

wonderful world

Hoje quero ser chata. Ou talvez apenas caminhar na contramão do orgulho humano. Estou falando da eleição das sete maravilhas do mundo. Para começar, devo dizer: nada contra os monumentos escolhidos. A beleza, a ousadia e a engenhosidade que os envolvem são admiráveis. E sou tão sensível a elas quanto qualquer ser humano. Contudo, são apenas demonstração da inteligência humana. E a inteligência, por si só, não garante a qualidade de vida no nosso planeta.
Portanto, a meu ver seria muito mais interessante que se fizesse uma eleição das maravilhas naturais, estas que gritam pela preservação. Ou, seguindo a idéia da criação do homem, as maravilhas da sabedoria humana. Seria uma forma de resgatar valores e re-valorizar legados imortais. Legados estes que permanecem entre nós, não como grandiosidades, mas como luzes que podem e devem acender as nossas próprias.
Posso pensar em vários destes legados, de maior ou menor importância, e deixo o convite: vamos relembrar o que a inteligência, aliada à sabedoria humana, nos deixou? Começo, você continua:

- a desobediência civil proposta por Mahatma Gandhi – revolução pacífica pela igualdade e fraternidade que inspirou grandes líderes como Martin Luther King e Nelson Mandela.
- o livro – uma das mais revolucionárias criações humanas, responsável pela disseminação do conhecimento, pela preservação da cultura, da história, das ciências, das artes e da literatura.

e uma escolha muito pessoal:
- a pílula anticoncepcional - pelo que representou na minha liberação sexual e, conseqüentemente, na revolução que provoquei na minha cabeça e no meu entorno.

Participando:

Endmore:
O mais belo e mais perfeito monumento de todos os tempos: a mulher.

Dora:
Eu dou meu voto para a Penicilina...E para Alexander Fleming! Que aliás, já foi detentor do Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina. Ele é um "monumento". E sua descoberta, a Penicilina, quantas vidas salvou??? Vc já teve alguma infecção? Quem não teve? Já pensou se não existisse a penicilina (o primeiro antibiótico)?

Jota Effe Esse:
Eu daria o meu voto para o patriotismo/humanismo do marehal Rondon. Nos contatos com os índios ele dizia; morrer se preciso for, matar jamais.

Guto:
Penso que Copérnico, Darwin e Freud revolucionaram a sabedoria humana com a derrubada de conceitos como, respectivamente: o Teocentrismo, que acreditava ser a terra o centro do universo; a Superioridade Humana frente às outras formas de vida, com a teoria da evolução das espécies; e a primazia do inconsciente sobre a consciência na mente humana. Estas maravilhas mudaram o rumo da humanidade, penso eu.

Maria Rita Schettino:
Um “monumento” brasileiro: Paulo Freire. Revolucionou a Educação através da Pedagogia Crítica e criou a Pedagogia da Conscientização, propondo um trabalho inclusivo que privilegia as classes mais pobres, visando sua educação e a criação de uma consciência política participativa.

Luis Tomás:
Sou pela Revolução Francesa, lembrada ontem na comemoração da Queda da Bastilha em 1789, fato marcante e simbólico dentro da revolução.
Em que pesem as guerras e o terror advindo desta revolução, foi através dela que foram semeadas novas ideologias na Europa (e em conseqüência no resto do mundo), em especial os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, princípios perseguidos até hoje pelo mundo ocidental.

Claudinha:
Adorei que tenha citado a pílula, pois esta foi marco de uma geração que se descobriu dona de suas vidas, de suas escolhas.

Lela:
Há uma maravilha natural, Loba, que luto para preservar; é a beleza doce e terna do sorriso de Kauan, meu afilhado, meu dengo de 4 anos. Preservar o sorriso dele é preservar o seu direito a uma vida segura com saúde, educação, amor e um mundo menos vilipendiado.


* * *

Grande beijo e ótimos dias a todos.


Midi: What a wonderful world - Louis Armstrong

Uma ex-crônica do perdão

Desde que vi, na televisão, a entrevista de Sirlei, a moça que foi covardemente agredida por um bando de universitários preconceituosos (a meu ver, xenófobos), venho tentando fazer uma crônica. Não sobre o fato em si, mas sobre perdão. Mais como uma homenagem a ela, pela sua imensa e invejável capacidade de perdoar seus agressores. Depois de várias tentativas, desisti. E agora descubro porquê.
Não sei perdoar. Eu que sempre me achei dona de uma grande capacidade de amar, não sei perdoar. E não consigo entender como é possível perdoar quando se está sofrendo as conseqüências de atos criminosos ou inconseqüentes ou egoístas. Sei que perdoar é uma atitude cristã - e sou cristã. Mas também não me esqueci da Lei de Talião que descobri na Bíblia, muitos anos atrás. E confesso: em casos como este, a vontade é fazer justiça com as próprias mãos.
Mas sou filha de Deus, cidadã do século XXI e espera-se que ao menos tenha um comportamento civilizado. E isso pressupõe exercer a minha cidadania sem infringir nenhuma lei. Mas não pressupõe perdoar. Ao contrário daquela moça, eu não perdoaria aqueles rapazes. Não enquanto o último resquício de dor moral não se extinguisse. Mas então não seria perdão. Seria esquecimento. Seria prescrição. Porque alguns atos são imperdoáveis. Assim como é imperdoável que tirem a venda da justiça e usem mecanismos legais para evitar a prisão de criminosos que não sejam pretos ou pobres.
Portanto, se o meu aculturamento não me permite sair por aí aplicando a lei de Talião, posso e devo me indignar. E a crônica que deveria ser de perdão, vira uma voz de indignação. Por Sirlei e por todas as vítimas da violência - seja física, moral, emocional. E que seja também um instrumento de repúdio à impunidade, esta praga que cresce em todos os níveis e se multiplica em mais violência.
E para finalizar: eu me perdôo por não saber perdoar.




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Bons dias, boas noites, queridas e queridos leitores!

E meus agradecimentos pela presença, pelos comentários, pela amizade.


Sem Midi (hoje não consegui encontrar o dourado da minha pílula)

Proseando

Helena, uma das faxineiras que trabalham comigo, tem um filho autista. Descobri antes mesmo que ela soubesse o que é autismo.
Dia destes, pediu-me para levá-lo para o trabalho - a vizinha não poderia tomar conta dele. Levou-o. Um garoto miúdo e sério. Parecia ter uns 4 anos. Passou toda a manhã num cantinho do corredor brincando com umas caixinhas.
Por várias vezes passei por ele. Em algumas, brinquei, fiz carinho em sua cabeça, mas ele pareceu nem me ver. E eu, de lá para cá nas minhas várias demandas, achei uma gracinha que ele não interferisse na rotina da empresa. Até que ouvi gritos estridentes vindos do corredor. Era hora do almoço e Helena estava tentando tirá-lo do seu mundinho para almoçar. A cena foi terrível. O garoto gritando, chorando e chutando. A mãe segurando seu braço com uma mão e com a outra alternando tapas e beliscões.
Minha reação foi imediata. Garanti a volta do garoto às suas caixinhas e levei Helena para minha sala. Em poucos minutos, tive a confirmação: ele era autista e ela não tinha a menor idéia do que vinha a ser isso, menos ainda de como lidar com o filho. Entre palavras cortadas por um choro cansado, contou-me um pouco de como vivia e do “castigo que era ter um filho esquisito”.
Pensei naquela mulher ganhando o salário mínimo, morando num barraco de dois cômodos com 3 filhos pequenos, sem nenhuma perspectiva de uma vida melhor. Toda minha disposição de condená-la pelo que fizera ao filho virou impotência. Como julgar, pelos meus parâmetros, alguém que apanhou da vida desde que nascera?! Como querer que ela entenda que filhos, diferentes ou não, são presentes e não castigo?! Como esperar que ela saiba que quem ama não bate, se todo o modelo que teve foi exatamente o contrário?!
Respirando fundo, disse a ela o que foi possível naquele momento. Mas eu sabia que era muito pouco. Era apenas uma tentativa de diminuir minha própria impotência.
Desde então, venho buscando parar de me preocupar com isso e me ocupar efetivamente de algo que possa mudar gradativamente esta realidade. Educação. Não há outra saída senão educar crianças e reeducar adultos. O desafio é convencer os patrões de que devem investir na reeducação de seus empregados e convencer os empregados de que mudar não dói. E pode trazer novas perspectivas para a vida de todos.
Será que estou novamente perdendo asas num sonho irrealizável?

Midi: A vida que a gente leva - Leila Pinheiro

Minha vida de "chefa"

- Se tu fosse homem te mandaria pro inferno, mesmo sabendo que perderia o emprego. Como tu é mulher...
O resto da frase pairou entre nós. Não sem antes entrar no meu sangue feminista e provocar uma revolução na cor do meu rosto. Gaúcho machista! Nos olhos dele, faíscas raivosas que gritavam: lugar de mulher é no fogão.
Contei até o congestionamento do rosto passar. Pedi a ele que se sentasse. Sentou-se. Tenso, raivoso, mas contido. De repente, deu uma vontade enorme de rir daquele homem de quase dois metros se contendo para não soltar um palavrão. Porque estava na frente de uma mulher. Mesmo que esta mulher fosse uma baixinha metida a saber de estradas e caminhões. Um sacrilégio, com certeza.
Ao perceber tudo isso, relaxei. Não engulo machismos, mas tinha que reconhecer: não era fácil para um gajo de estrada conter a língua. Menos ainda receber ordens de uma mulher. Resolvi mudar de atitude. Eu não precisava provar que era hierarquicamente superior a ele. E seria fácil demais dar-lhe um ultimato. Difícil seria ensinar-lhe uma maneira nova de lidar com as nossas dificuldades.
Ao invés de impor-lhe a minha decisão, entreguei a ele os meus problemas. Pedi-lhe que encontrasse uma solução em dez minutos – prazo que tínhamos para tomar uma decisão. Passado o prazo, mandei chamá-lo. Entrou com outra postura. Embora ainda tivesse o antigo e arraigado machismo no fundo dos olhos claros, havia um brilho novo: respeito profissional.
- Vou fazer o que tu quer.
Com um aceno de cabeça, desejei-lhe boa viagem e voltei aos meus papéis. Feliz. Mais que isso: com a sensação de vitória. Mais uma vez eu descobrira que contornar obstáculos é mais inteligente que bater de frente com eles. E respeito, a gente conquista.

* * *

Um belo fim de semana a todos! Beijos meus.



Midi: Serenata - Marcus Viana

Página solta

Não são as grandes tragédias que me movem. Sinto-as, é bem verdade. Cada pedacinho da minha carne chora a dor que todos choram. Mas no fundo sei: choro as minhas dores. Aquelas que escondo sob camadas de véus e só me permito tirar quando posso misturá-las a outras.
Não que eu seja insensível às dores dos meus semelhantes. Mas na minha reconhecida impotência para lidar com o que está além de mim, volto-me para dentro. E cada emoção criada pela dor alheia, lembra uma emoção que guardei. Aos poucos viro rio. E nem tão aos poucos, seco. É só o tempo de virar ontem o que hoje me lembrou aquelas dores. É o meu processo de entendimento do mundo. Só assim consigo me sentir inteira para, no lugar do choro, colocar uma atitude de mudança. Só assim vou transformando tragédias em força, dores em passos.
E de passo em passo vou me distribuindo – para mim e para além de mim.


Poetando sobre:

Nelson:

Tenho um "mim" que não se aguenta
Explode "eu" em vários outros
Que já nem mais só em gentes
Estou também nas outras coisas

Diovvani:

"Melhor é ficar atento,
virar do avesso todo lamento.
Pois a cada instante damos adeus,
ao que fomos um segundo atrás".




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Sejam bem vindos os novos: Ronald, André Luis, Afonso, Wagner. Sejam re-bem vindos aqueles que andavam sumidos. E àqueles que sempre me acompanham: meu carinho e meus agradecimentos.


Midi: Ne me quitte pas - Nina Simone

Se ler é o melhor remédio...

Hoje acordei querendo ler uma besteira qualquer. Uma história de amor, bem amor. Ou uma revista daquelas que não dão nó em neurônios ou que façam o pensamento saltar entrelinhas. E disse a mim mesma: hoje eu posso. Já fiz todos meus deveres de casa.
(Porque uma pessoa precisa respeitar seus dias de papel em branco. E deixar estes dias passarem despercebidos e anônimos e desconhecedores.)
Mas antes não pensava assim. Eu sempre me irritei e me entristeci e me compadeci com esta absoluta falta de leitura que ronda grande parte deste país. Algumas pessoas não lêem nada. Nem história de amor, bem amor. Nem receita de bolo-felicidade.
Então virei musa de caminhoneiros. E descobri que ficar irritada, entristecida, compadecida não muda a sintaxe do povo brasileiro. Nem me faz querer ser literariamente correta o tempo inteiro. E mudei. E comecei a pensar que ler qualquer coisa pode ser melhor que nunca ler nada. E que falar mal de subliteratura é olhar para o próprio umbigo e esquecer que nem todos os neurônios são preparados para devorar livros de grandes autores. Os neurônios que passam fome irão, no máximo, entender uma placa de sinalização. Aqueles que batalham para garantir o aprumo da coluna vertebral podem ir um pouco mais além. Mas raramente conseguirão passar das construções rudimentares de uma auto-ajuda, da linguagem infantilizada dos heróis de quadrinhos ou da legenda que abre a métrica de um corpo nu das revistas masculinas.
Culpa deles? Culpa minha? Culpa sua? Culpa das editoras que fecham espaço à poesia e entopem o mundo com Brunas Surfistinhas?
Seja como for, fica a pergunta: é melhor ler qualquer coisa do que nunca ler nada?



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E por falar em neurônios, os meus estão esfumaçando com este blogger novo. Quer salvar uma alma ainda leitora? Me ensine a fazer os links abrirem em janelas diferentes, por favor!!!!

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Ótima semana pra você. E meus beijos.

De Poesia, blogs e amigos


Aproveitando uma pergunta feita pelo poetamigo Francisco Dantas, o post que ganhei da querida Luma, o que li no blog do Lino Resende e no blog do Ricardo Rayol, volto ao tema que adoro: blogs.
Quando fiz meu primeiro blog, estava à procura de um espaço onde, anonimamente, pudesse fazer minha catarse. E fiz. Joguei na tela minhas neuras, meus anseios, minhas paixões. Surpresa, descobri que não só era assistida como acompanhada por um número crescente de pessoas. Pessoas diferentes entre si, mas que se viam em mim. E o mais surpreendente: eu me via em cada uma delas, embora acreditasse ser diferente de todas.
Aos poucos meu blog virou ponto de encontro. E foram muitos, interessantes, criativos encontros. E o blog passou a ter como grande objetivo a interação. Fiz grandes e belas amizades. Algumas, efêmeras. Outras, eternas. Em todas elas, as trocas, o carinho, a companhia.
Mas descobri que blog vai além disso. Muito além. É um grande instrumento de aprendizagem. E a professora rendeu-se. Virou aprendiz em tempo integral.
Foi aqui que fiz meus primeiros versos. Foi através do incentivo de amigos que ousei poetar. Eu que sempre amei poesia, mas nunca ousei fazê-la minha. A convivência com poetas como AdéliaTheresaCampos, Antoniel Campos, Assis Dantas, Assis Freitas, Benno Assmann, Carlili Vasconcelos, Cássio Amaral, Dácio Jaegger, Dora Vilela, ElisAlegria, Geórgia, Jeanete Ruaro, Linaldo Guedes, Luiz Tarciso, Márcia Maia, Rafael Nolli, Regis Marques, Val Freitas e muitos outros grandes poetas-blogueiros, me fez invejosa. Eu lia o que eles escreviam e me perguntava: por que não posso também escrever bonito assim?
E ousei. E me misturei a outros grandes poetas. E virei musa. E amei. E poetei. No início, daquele jeito desengonçado como criança que começa a andar. Depois aos poucos fui pegando o jeito do poema. Ajudada pelos amigos, incentivada pelos poetas.
Hoje, ainda que não me sinta verdadeiramente poeta, brinco com a Poesia de forma íntima. Sem nenhuma intenção de ser ótima, mas com todas as invejas possíveis de poetas como Bosco Sobreira, Erly Ricci e Wilson Guanais – três grandes incentivadores, musos e poetamigos.
Mas não cresci apenas na Poesia. A cada dia descubro que nada sei e que aprendo algo novo ao visitar os blogs da minha lista (que cresce numa ligeireza maior que meu tempo). Às vezes, uma palavra. Outras, uma frase. Uma indignação, uma catarse, uma estação – em todos me vejo descobrindo, aprendendo, me surpreendendo. E amando cada vez mais este espaço democrático, diverso e receptivo.
E todos os dias, me misturo a Fernando Pessoa na renovação da minha certeza: não sou nada, não posso ser nada, não quero ser nada. Mas tenho todos os blogs do mundo!

*(todos os amigos citados estão na lista aí do lado.
e todos os não-citados também)


Um grande beijo a todos.
(Especialmente aos que ainda não foram citados, mas que são muito importantes no meu dia-a-dia de blogueira)


SOS!!!!
Alguém sabe me ensinar como fazer meus links abrirem em janelas diferentes, neste blogger novo???


Midi: All of me - Billie Holiday